




Como pode achar que sabe de mim pelos meus devaneios, se sou a contradição?
De desejos são as rimas que faço, fazem parte do meu ritual, não são descalabros.
Não vivo uma tragédia grega, nem sou deusa de ninguém.
Sou mulher de carne trêmula, de olhos atentos, de tesão a flor da pele.
Não quero o mal do outro e só acendo vela pro bem.
Não gosto de trilhas sujas e deformadas, as que sigo são livres e com destino no amor, aliás, o amor é meu limite, é minha consideração.
Não temo castigos pois meu santo é forte. Sou filha da água, embora me sufoque em lágrimas de saudade, esse sim, sentimento que não consigo dominar.
Traço rabiscos em forma de coração, de pontes, de relógios, sem saber o que significam, mas me dão alento na insônia maldita.
Falo manso e ando devagar, sou corajosa porque alguém me faz acreditar, sou covarde por não gritar.
Não gosto de mudanças bruscas, nem de trocar nada de lugar, sou acomodada, fiel e partidária, sim, sou amante de um homem só e por ele eu corro mundo, curo feridas, morro de fome e almejo chegar.
Se cortarem do mundo os sonhos como sobreviveremos à densa e melancólica realidade?
Márcia(clarinha)

É difícil aprisionar os que têm asas
(Caio F. Abreu)

Na sua briga com a noite, ganhou o dia com sua espada de luz trazendo a liberdade de pensamento, agilidade de atos, sorriso estampado e a certeza de que o sol queima as dúvidas e indagações que povoam o breu camuflado de insônia...
(Márcia(clarinha))

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém..
(Clarice Lispector)

Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que à tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.
(Nuno Judice)

Meu verso
Não tem estática
Técnica
Ou métrica
Ao contrário
Tem truques
Badulaques
E ataques
é um verso
Caduco
Eunuco
Fanático
Mas tem seu valor
Por ser democrático
(Paula Taitelbaum )
Marcadores: Imagem:Toni Meneguzzo

E a menina encontrou a flor e a cheirou e se engasgou com tamanha felicidade
E a mulher encontrou a flor e a cheirou e gozou com tamanha honestidade
E as duas hoje dividem seus momentos entre o ter e o ser, entre o engasgo e o orgasmo, com honesta felicidade
(Márcia K. Rehen)

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O "amar os outros" é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].
(Clarice Lispector)